Sobre A Liquefação e a Decantação

 





A exposição "A Liquefação e a Decantação" de Dione Veiga Vieira, ocorreu na Galeria Gestual, entre 13 de setembro a 24 de outubro de 2008, em Porto Alegre.


Por Ronald Augusto:
"O caso de Dione Veiga Vieira, talvez em função dessa condição privilegiada de criadora ambidestra - haja visto ser poeta e artista visual -, ou que outra explicação se tente, sempre me pareceu interessante. Sua confiança na autonomia da linguagem poética se revela tão jubilosa em sua luminosidade carnal, que não é justo mostrar indiferença frente às imagens que povoam Matiz de Estação (1983), infelizmente, diga-se de passagem, o primeiro e único livro de Dione até agora. Mas, aqui, e por ocasião da exposição individual que em breve será inaugurada, direi algumas palavras sobre sua arte não-verbal.

Suas obras plásticas ou seus objetos algo brossianos, de pendor intersemiótico, se configuram numa espécie de outra dimensão dos belos poemas-texto que conhecemos. Seus objetos não-utilitários são coisas-pulsões, signância a contravento de uma ratio medianeira, objetos de linguagem. Mais do que uma representação do mundo, eles se convertem em invenção de um mundo à parte, sem margens precisas, que obedece à gravidade e leis próprias.

Quando comparo tanto os trabalhos visuais, quanto a poesia conquistada e realizada por Dione Veiga em Matiz de Estação à “uma cartografia equívoca” — mapeamento multilingual de pequenos utensílios e signos que pensam a sua própria ausência corrosiva —, minha intenção é a de valorizar a beleza do discurso poético-imagético como algo livre e aberto, algo no qual o leitor-fruidor não pode depositar suas esperanças de redenção, nem esperar que a partir de tal realidade cambiante depare um rumo para as suas angústias existenciais, etc. A poesia nos convida a uma participação não-crédula, álacre. Do meu ponto de vista, o qualificativo “equívoco” representa um ganho, uma chave de leitura para toda a grande poesia ou obra de arte que, ao fim e ao cabo, por meio de suas linguagens, nos dão a possibilidade de ampliação dos limites de sentido do nosso mundo. E Dione, através de sua arte, nos oferece isso."

Topografias da Carne



Primal, 2000. Na exposição PRIMAL no MAC-RS, em 2023.

Por Paula Ramos*

[...]   Em Limites, exposição individual que Dione apresentou em 2000, um sentimento de organicidade estava bem presente. Rasgos na superfície da tela e nos corpos volumétricos remetiam a feridas cutâneas, a erupções. E, mesmo que a artista não estivesse propondo esse tipo de leitura, ela parece inevitável, uma vez que, ou por similitude, ou por organicidade, nossa percepção nos leva a traçar relações com o que está próximo e é reconhecível. Primal, instalação que Dione apresenta neste momento, é um desdobramento de Limites, assim como a própria mostra Limites havia sido um prolongamento de suas obras anteriores. 


Dione Veiga Vieira. Memória Primal, 1999/2000. Técnica mista. Acervo MARGS.

Dione Veiga Vieira. Primal, 2001. Detalhe. Acervo MAC-RS.





Dione Veiga Vieira. Alma do Mundo, 2000. Acervo MARGS.


Dione propõe, nesse caso, duas séries de trabalhos que, embora diferentes, mantêm um diálogo íntimo entre si. A primeira delas se constitui de seis imponentes corpos suspensos no teto e de uma inusitada esfera. A uma primeira vista, eles podem sugerir robustos pedaços de carne aguardando a dilaceração. Já a segunda série é formada também por seis grandes trabalhos, dessa vez sobre papel. Nem pintura, tampouco desenho, esses últimos são carregados de texturas e de materialidade, próprias da poética da artista. 

Dione Veiga Vieira. Memória Primal, 1999/2000 (ao fundo, à esquerda) e 2001(a direita). 
Na exposição panorâmica TERREAL, no MARGS em 2021/22.


Tomemos, por ora, os corpos. Constituídos de algodão e do acúmulo de camadas de estopa umas sobre as outras, esses volumes pulsam. Exalam uma energia visceral, que se manifesta, sobretudo, na textura e na cor, no aspecto de tecido humano, com suas artérias e capilares. Uma energia que nos convida a olhar de perto e a descobrir os orifícios e as saliências que parecem querer ejetar secreções. Essas formações alongadas ou escarafunchadas no seio do material são obsessivas no trabalho de Dione, desde quando ela trabalhava com a bidimensionalidade da tela, sobretudo no início da década de 90. 

Ao longo de boa parte dos anos 90, por uma série de injunções pessoais, Dione manteve-se afastada das galerias, não expondo. Quando voltou, porém, foi com carga plena. Limites marca esse retorno de maneira exuberante, ao posicionar o tipo de pesquisa que lhe interessava: uma investigação calcada em formas orgânicas e na utilização de suportes e materiais pouco convencionais. A maioria das formas então apresentadas partia de projeções volumétricas vindas do suporte tela. Outras constituíam corpos alongados confeccionados com algodão, preenchidos com espumas e tendo na superfície areia, parafina e espinhos de ouriço-do-mar. Esse último trabalho, intitulado de Memória Primal, foi o precursor da instalação Primal. Em Limites, portanto, Dione reafirmou a urgência e a necessidade de elementos orgânicos, incluindo saliências, orifícios, espaços de respiro e de cruzamento entre os planos interno e externo das obras, sendo que os materiais utilizados e a forma como eram aplicados evidenciavam esse caráter de organicidade.

Nos grandes corpos que constituem Primal, a artista mantém esses elementos, mas vai além, conquistando uma tridimensionalidade que em Limites estava apenas em gestação. Incorpora, também, a tinta não como uma mera possibilidade de cor, mas como uma massa que se funde à estopa e aos cordões que a prendem, criando uma espécie de amálgama. A fusão desses elementos constitui um relevo singular, uma topografia quase corpórea. E se, em um primeiro momento, esses corpos podem gerar até mesmo repulsa, tal impacto é suavizado ao se caminhar por entre eles, ao tocá-los e ao se sentir as rugosidades e as texturas da superfície.   

Já os trabalhos sobre papel, que também integram essa exposição, surgiram em um segundo momento e trazem uma importante carga expressionista. Dione, que sempre apreciou o desenho, resgatou o papel primeiramente como um exercício, a fim de desenhar os corpos que criava em algodão. Fazia-os com grafite e com bastões de tinta a óleo. A curiosidade a levou a despejar, sobre os mesmos, parafina derretida. Uma, duas, às vezes três camadas, extrapolando os limites do papel. À medida que o material secava, sentia-se motivada a fazer novos desenhos, dessa vez com a espátula, rapidamente. Não demorou para que acrescentasse também a própria estopa. Essa, fundida à parafina, criou inusitados desenhos e espessas texturas. Em alguns casos, Dione chegou a queimar a estopa, permitindo que o fluxo da combustão originasse uma nova linha. Em outros, ressecou a superfície, ao pressioná-la contra a chapa metálica ardente onde derretera a parafina. Criou, dessa forma, novas manchas, acentuando o caráter oleoso do material. A artista diz que, para ela, essas intervenções são como ferimentos, assim como o são a estopa queimada e as ranhuras na face do trabalho. Pode ser. Sua poética, de fato, parece remeter a metáforas que aludem à finitude, ao dilaceramento, à vida, mas também à morte. 

Esses trabalhos sobre papel trazem muitas referências de obras anteriores, principalmente dos monocromáticos, produzidos no final dos anos 80 e início dos 90. Naqueles, Dione já demonstrara seu interesse pelas possibilidades da cor e pelas texturas, apresentando grandes pinturas de uma única cor, porém em gradações diversas e com superfícies rugosas, alcançadas com a adição de areia e de pigmentos diversos. Os trabalhos sobre papel atuais trilham o mesmo caminho, explorando sutilezas do grafite, de certos dourados e também a gordura e opacidade típica da parafina, mas sem esquecer do peso da materialidade, da importância dos elementos agregados ao suporte, das topografias, tão viscerais para a artista.  

Plenamente segura no que faz, Dione Veiga Vieira nos oferece uma linguagem que nada tem de cômoda. Pelo contrário, incomoda, sim. Mas o que seria da arte, se não propusesse transgressões, rupturas, inquietações? 

*Paula Ramos - Professora, Crítica e Curadora. Doutora em História, Teoria e Crítica de Arte pelo Instituto de Artes da UFRGS.

TOPOGRAFIAS IMAGINÁRIAS NA PINTURA DE DIONE VEIGA VIEIRA


Dione Veiga Vieira. Pintura s/título, 1988. Pó xadrez, areia, esmalte sintético, madeira e sacola plástica sobre tela. Coleção Icleia Cattani.



TOPOGRAFIAS  IMAGINÁRIAS NA PINTURA 

DE DIONE VEIGA VIEIRA


Por  *Icléia  Borsa  Cattani 



Vermelhos e Amarelos

   Preocupação fundamental no trabalho de Dione Veiga Vieira .Trabalhar com o vermelho, laranja, amarelo, contrapondo-os a azuis e verdes. Nos trabalhos anteriores (83 – 84), muitas combinações binárias (vermelho - azul, laranja - verde) , às vezes, a utilização de três ou quatro cores, quase nunca mais do que isso. Cores puras. Cor - brilho, brilho direto  da tinta esmalte, acentuando certas qualidades da cor, escamoteando outras. A partir de 1986, começam a surgir, de modo mais sistemático, trabalhos monocromáticos, primeiramente em azul, que chegam até a fase atual: grandes telas, grandes superfícies de uma única cor em gradações diversas. A opacidade atual revela outras qualidades da cor, sutilezas de gradações antes impossíveis, força maior da cor - textura.



Panos  e Areias


   O trabalho com a cor acompanha-se de um trabalho com texturas. As investigações com texturas  são antigas: desde 1983, emprego de papel, panos, telas de plástico de trama aberta, pó de mármore e , atualmente , areia. Materiais colados sobre a tela do suporte, surgindo num processo que envolve simultaneamente, sem uma ordem predeterminada, a cor e a textura. As preocupações antigas, manchas e zonas de cor, formas com ou sem limites, ganharam outro peso com a utilização dos novos materiais – areia, pó xadrez – que foram permitindo uma liberdade cada vez maior no tratamento das formas e cores. As texturas visuais, criadas através de traços e pinceladas justapostas, desapareceram totalmente, em benefício das texturas reais que criam relevos em ocre, em terra, em vermelho ou marrom. Topografias imaginárias.





Telas e chassis


    “O suporte como objeto de pintura” *. A tela e o chassis, trabalhados de modo não-tradicional: quanto ao seu  formato, quanto aos seus limites, quanto à sua estrutura. Desde 1983, essas questões aparecem de modo recorrente. Nesse ano, um quadro como “Pandorga” já  evidencia a questão do formato irregular, que se tornará  mais sistemático com o correr do tempo. Ainda em 83, aparecem as telas pintadas nos dois lados (verso e reverso), criando  um quase - objeto, forçosamente manipulável, para que se possa ter uma visão do todo... Por outro lado, na mesma  época  Dione inicia  também  a pintura das bordas laterais do chassis.

   Em 1987, aparecem telas  com pedaços de madeiras nas laterais, que ultrapassam o tamanho do chassis, contribuindo de outra forma  para a criação de formatos irregulares. Esses pedaços de madeira, anexos à tela , modificam substancialmente o conjunto, dando à pintura um aspecto mais primitivo. Surgiram de certa forma de um jogo, de uma atração pelo material (madeira). Dione recolhia pedaços de madeira na rua, nos restos das madeireiras, para construir  os chassis de suas telas. Aos poucos, surgiu o desejo  de jogar com esses elementos, anexando-os à tela pronta. Às vezes pintados, às vezes ao natural, eles invadiram também o interior da tela, acrescentando-se aos elementos de textura já existentes. Mas, fixados à tela, não permitiam um jogar com a forma, desejo que foi aumentando com o tempo.


   Os quadros - dípticos, surgidos em 1988, permitem  novos jogos. Primeiramente, a própria construção do chassis, de formato irregular no qual são aproveitados pedaços de madeira similares  aos que eram justapostos anteriormente. Ou seja, as dimensões dessas madeiras são levadas em conta, influem no formato final do chassis...  Em  segundo lugar, o jogo aparece com os “encaixes - divisões”  * dos dípticos, “criando campos de atração  entre as partes e , ao mesmo tempo, dando autonomia às mesmas”*. Os dípticos possuem , realmente, formatos inusitados, que permitem o encaixe das formas, ou a sua divisão... Embora dípticos, não são presos um ao outro, como acontecia anteriormente (1986). O espaço existente entre as duas partes é vital , acaba sendo constitutivo da obra – “respiros” , aberturas internas / externas , que mexem  ao mesmo tempo com  o conceito tradicional de díptico e com as concepções de interior-exterior. Outra questão importante. O espaço interno, da cor - textura, nasce após definição (arbitrária) do formato suporte. Esse aparece pois, realmente, como “objeto de pintura”* , como aquilo que define a priori o campo de projeção  do imaginário.



(DES) Encaixes


   Cria-se um jogo sutil entre as formas do suporte, que deveriam ser nítidas (para permitir os encaixes imaginários), e as bordas da tela deixadas soltas sobre o chassis e “pintadas como extensão do próprio espaço de pintura” *, criando “flous”, desfazendo em partes os limites, desmentindo em parte os encaixes possíveis.


   Esse jogo com os limites vem de longe. Está presente nas telas pintadas dos dois lados. Está presente, significativamente, no título da primeira exposição individual, “Quadras de destrinça”.  Está presente nas formas internas ao campo pictórico, que foram progressivamente perdendo os limites até tornarem-se um amálgama, uma forma única, cujas diferenças são marcadas apenas por sutilezas de tons e de texturas.



Paisagens – topografias


   Nos trabalhos mais  antigos , pode-se discernir, em função da disposição interna das formas , como que paisagens imaginárias. Aqui, um corte horizontal  no espaço, que sugere uma linha de horizonte; acolá , dois cortes semi - circulares , sugerindo montanhas e um vale. Dessas paisagens imaginárias , Dione fotografava  detalhes, que evidenciavam muitas vezes manchas, amálgamas de cores, que passavam desapercebidas no contexto geral da pintura. Esses macros - detalhes constituem , transformados pelas texturas, as formas – cores das telas atuais, as topografias imaginárias.


   Essas topografias fazem com que os espaços entre as partes dos dípticos apareçam como fendas, falhas geológicas – continentes separados, que mexem com sentimentos primitivos. Qual deles ?  A perdida Atlântida ?





-  Entrevista de Dione Veiga Vieira à autora , Dezembro / 1988.


**  -  Icleia   Borsa Cattani

         Crítica de arte, doutora em História da Arte, professora titular do Instituto de Artes da UFRGS, professora visitante no doutorado em Artes Plásticas da Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne).


“Terreal”: Dione Veiga Vieira fabula relações entre corpo, objetos e natureza no MARGS



por 

Inaugurada no sábado (11/12), a exposição Terreal apresenta mais de 40 obras da artista visual Dione Veiga Vieira no segundo andar do MARGS. A mostra concentra-se em trabalhos produzidos a partir de meados do ano 2000, marco de transição da produção de Vieira da pintura para suportes como instalação, vídeo e fotografia.

A Exposição pode ser compreendida em seu conjunto como uma ampla instalação composta por diversos e distintos trabalhos, todos convocados à maneira como a expografia foi concebida, como se a artista se apropriasse das próprias obras para dar a ver uma outra obra”, apontam Francisco Dalcol, diretor-curador do MARGS, e Fernanda Medeiros, curadora-assistente do museu, no texto de apresentação.

O caráter instalativo do conjunto, observado pela dupla de curadores, é uma das primeiras impressões que se tem ao ingressar na galeria Iberê Camargo do MARGS, onde está a maior parte da exposição. O espaço cria um lugar de encontro entre obras que evocam o corpo habitando o ambiente doméstico, de um lado, e imerso na natureza, de outro.

No primeiro eixo, evidencia-se o interesse da artista pela ressignificação de objetos, como nos bancos de Antessala (2008-2013), modificados com a inclusão de utensílios de cozinha e outros itens. Em Fragmentos Primordiais (2004), uma prateleira passa a conter ganchos de açougue. Na obra Decantação III (2008), uma estante reúne 47 vasos azuis com bordas que remetem a flores. Ao lado, a série fotográfica Solutilis(2011) descontextualiza as formas desses vasos aludindo a imagens microscópicas de materiais orgânicos e fotos internas do corpo humano.


“Imaginei os vasos como corpos, cada um diferente do outro”, conta Vieira, que encontrou os utensílios em uma loja de bairro e teve a atenção despertada pelas variações – defeitos de fabricação? – de suas formas. A ida recorrente ao estabelecimento para comprar quase meia centena de vasos deixou o vendedor desconfiado. “Ele perguntou se eu estava revendendo”, diverte-se.

O dado corriqueiro da construção do trabalho é um exemplo de como o olhar de Vieira se transformou duas décadas atrás. “Quando larguei a pintura definitivamente, tudo virou ateliê para mim. Ao explorar mais a fotografia e os objetos, meu pensamento foi mudando. Comecei a trabalhar ideias relacionadas ao corpo e à natureza, sempre com a carga evocativa dos materiais. O mundo à minha volta se transformou no substrato da minha produção”, reflete a artista.

Em diálogo com os trabalhos que sugerem ambientes domésticos, no lado oposto da galeria fotografias de paisagens ganham protagonismo. “Essas imagens surgiram da ideia de fazer uma ação poética e solitária na natureza. Em uma delas, me imaginei retirando do mar um ovo, como uma palavra inusitada que aparece em uma poesia”, recorda Vieira.



Alguns dos trabalhos mesclam fotografias e vitrines repletas de objetos e pedras. “Quando me perguntam se eu tirei os objetos do mar, digo que é do mar da memória e da minha história, mas que pode ser da história de qualquer um”, explica a artista, destacando a abertura das obras a diferentes narrativas e fabulações, um dos elementos centrais de sua poética.

Outra questão cara à Vieira são os processos de transformação. “Nada perdura, tudo está sempre se modificando”, observa. Em trabalhos como Zona de Metamorfismo(2015), a artista insere textos nas fotografias, articulando termos da geologia e da psicanálise para abordar as mudanças pelas quais passam o humano e a paisagem em suas diferentes temporalidades.

Sala Oscar Boeira reúne obras que marcam inflexão na trajetória de Vieira

Foto: Ricardo Romanoff

A exposição continua na sala Oscar Boeira com obras produzidas entre 1999 e 2001 – além de três mais antigas, do começo dos anos 1990 – que marcam a guinada de Vieira em direção à fotografia, ao vídeo e à instalação. “Rompi com a pintura, mas já estava fazendo telas recortadas como se fossem objetos e esculturas de parede. Foi o término de uma pesquisa com materiais e já havia uma proposta instalativa”, observa Vieira, aos 67 anos, refazendo o percurso que a levou de obras como Primal (2001) aos trabalhos expostos na galeria Iberê Camargo do MARGS.

Enquanto nas obras da galeria preponderam o azul do céu e do mar, além de tons escuros e metálicos, na sala Oscar Boeira as tonalidades terrosas ganham evidência, dialogando com o título da exposição, descrito da seguinte forma pelo texto assinado pelos curadores:

Terreal. Adjetivo que designa o que é relativo à terra, terrestre. E também o mundano, dos prazeres terreais, consequentemente do corpo. Dito de outro modo, aquilo se situa entre o terreno e o humano: o real objetivo, mas também a realidade enquanto invenção, efeito da maneira de ver e perceber, de compreender e se situar. Fabulação e ficção a partir do que está dado e colocado. Daí, a arte como construção de realidades.

Artes Visuais | Reportagens

 

A Terra é Azul




"A cor azul sempre me fascinou desde os primórdios das minhas atividades artísticas. Primeiramente, nas investigações pictóricas dos anos 1980-90, quando produzi muitas telas monocromáticas nessa cor, as quais remetiam a vistas espaciais ou aéreas da superfície da Terra." (Dione Veiga Vieira)


Quando o cosmonauta soviético Yuri Gagarin saiu do nosso planeta em 1961, declarou: “A Terra é azul!”. 


Esse depoimento causou certo impacto no cenário artístico da época.


Não foram poucos os artistas que começaram a se relacionar de outras formas com a cor, utilizando-a em seus trabalhos sob novas perspectivas.


O azul é muito presente no trabalho da artista Dione Veiga Vieira, não apenas pelo interesse sobre a cor em si, mas também pelo que ela pode representar estando no cerne de alguns dos temas que aborda. 


Sua obra tem um caráter simbólico e brinca com os sentidos das palavras. A artista muitas vezes extrai do mar – literal ou do pensamento – ferramentas físicas, mentais ou sensoriais para sua poética. 


O céu, que muito bem representa a imaterialidade, também aparece em seu trabalho. O azul é imaterial justamente por representar aquilo que existe de mais transparente e intangível na natureza: o céu e a água. 

No trabalho “Zonas de metamorfismo”, a artista parte de uma fotografia para abordar relações entre arte e ciência, mais precisamente a geologia. 

Sem o registro feito pela câmera fotográfica da artista, talvez o olho humano não fosse suficiente para identificar as cores, formatos e texturas presentes na cena. 

Assim como na pintura, a fotografia nos dá a possibilidade de escolhermos o que iremos privilegiar em uma imagem, e aqui Dione nos coloca diante das texturas naturais da paisagem, existentes nas rochas, e da gradação de tons azuis apresentados pelo mar que parece tocar o céu. 

A imagem nos convida a um olhar atento, capaz de identificar todas as suas minúcias. 

Ainda pensando que Dione utiliza metáforas e simbologias, o trabalho intitulado “Solutilis” registra uma coleção de vidros sendo observados de cima. 

As imagens formadas ali os transformam em outras coisas, que nos remetem a elementos que vão desde células até águas-vivas, flutuando em uma profunda escuridão. 

A artista relata não utilizar uma extensa variedade de cores em seus trabalhos, mas privilegiar o azul por ser “a cor mais próxima da escuridão”, pensamento que muito se relaciona com o de Yves Klein, que em certo momento afirmou: "em primeiro lugar não há nada, então há um profundo nada, depois disso uma profundidade azul…”


Ana Carolina Cecchin Chini - artista visual, pesquisadora, mediadora do MARGS. 

Sobre obras na exposição TERREAL em Março /2022, no MARGS - Museu de Arte do Rio Grande do Sul. @museumargs 




TERREAL

Há nas obras de Dione Veiga Vieira uma mesma força que as perpassa, e que confere uma unidade não tão aparente ao corpo de sua heterogênea produção. Força que provém de uma intencionalidade com implicações diversificadas e complexas em seus trabalhos, mas que ainda assim lhes é fundante e comum.

 Essa força vem de uma tremenda vontade de apreensão do mundo e das coisas, como busca motivada por compreender e vislumbrar as feições que o mundano e material assumem; seja a partir do olhar dirigido à observação atenta dos próprios estados naturais e processos de transformação, seja pela visualidade decorrente do ato de intervir na ordem da normalidade.

Isso se dá não exatamente pela captura objetiva do conhecimento, mas pela disposição ao advento da descoberta, movida pelo exercício de percepção das coisas e pela operação de recolocá-las de outro modo, segundo atos de ressignificação e reinvenção, ambos acionados por um modo de pensamento e ação que são próprios à arte. 

 Uma força, portanto, que se inscreve e movimenta no domínio da dimensão poética.

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TERREAL. 

Adjetivo que designa o que é relativo à terra, terrestre. E também o mundano, dos prazeres terreais, consequentemente do corpo. Dito de outro modo, aquilo se situa entre o terreno e o humano: o real objetivo, mas também a realidade enquanto invenção, efeito da maneira de ver e perceber, de compreender e se situar. Fabulação e ficção a partir do que está dado e colocado. Daí, a arte como construção de realidades.

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Dione Veiga Vieira — TERREAL”, primeira individual da artista no MARGS, aborda os últimos 20 anos das quatro décadas de produção de um dos mais destacados e atuantes nomes da chamada “Geração 80” das artes visuais no Rio Grande do Sul.

A exposição abrange o período que se inicia na virada dos anos 2000, assinalando o momento de rompimento com a pintura, disciplina à qual concentrou sua produção nos 20 anos anteriores em torno de questões matéricas relacionadas ao campo pictórico. 

Essa transição levou a artista nos anos seguintes a encaminhar sua obra pela via da experimentação com objetos tridimensionais e propostas instalativas e de investigação da imagem, mediante utilização de materiais naturais e industriais; valendo-se do caráter narrativo e poético da literatura, sobretudo a seu modo de explorar o conhecimento científico pela via da abordagem poética.

Nesse movimento, incorporou meios e linguagens diversos, como escultura, instalação, fotografia, vídeo, texto, fotoperformance e mesmo apropriação de objetos e elementos, dando densidade a uma produção pautada pelo que denomina por “poética do corpo e da natureza”.

Embora cada obra seja una e acabada em si, incide sobre essa individuação um pensamento de montagem na formalização espacial, que conduz a apreensão do todo pelas suas partes e fragmentos. A artista joga com procedimentos da tradição conceitualista da arte, mas é ao convocar o pensamento instalativo que conforma cada trabalho ao modo de exibição que lhe é próprio e particular.

Esse expediente fundamenta o pensamento que estrutura a disposição das obras em sua totalidade ao longo da galeria Iberê Camargo e da sala Oscar Boeira. No que a exposição pode ser compreendida em seu conjunto como uma ampla instalação composta por diversos e distintos trabalhos, todos convocados à maneira como a expografia foi concebida, como se a artista se apropriasse das próprias obras para dar a ver uma outra obra. No limite, é uma exposição que se faz e constitui enquanto uma obra em si. 

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Em sua proposta, esta mostra procura explicitar e assinalar o amplo campo de cruzamentos, atravessamentos e contaminações em que se amalgamam o pensamento poético e as práticas artísticas no decorrer da produção e trajetória de Dione Veiga Vieira.

Para tal, apresenta uma reunião representativa de obras da artista, trazendo a público um conjunto histórico que agora ingressa no Acervo do MARGS, e que vem a enriquecer e qualificar sua presença na coleção.

Além de obras do acervo do Museu, entre recentemente adquiridas e já integrantes da coleção, a exposição conta ainda com trabalhos pertencentes ao Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul — MACRS, Fundação Vera Chaves Barcellos — FVCB, Pinacoteca Aldo Locatelli da Prefeitura de Porto Alegre e coleções particulares.

Como primeira individual de Dione Veiga Vieira apresentada pelo MARGS, a exposição se insere no programa “Histórias ausentes”, voltado a projetos de resgate, memória e revisão histórica, com o objetivo de conferir visibilidade e legibilidade a manifestações e narrativas artísticas, destacando trajetórias e atuações. Assim, a presente mostra dá prosseguimento ao ciclo expositivo, em sequência às mostras “Otacílio Camilo — Estética da rebeldia” (2019) e “Yeddo Titze — Meu jardim imaginário” (2021). 

Ao mesmo tempo, “Dione Veiga Vieira — TERREAL” estabelece um diálogo com exposições do programa artístico-curatorial da atual gestão que destacaram a produção e trajetória de pares de geração, notadamente as individuais “Frantz — Também e ainda pintura” (2019) e “Lia Menna Barreto: A boneca sou eu — Trabalhos 1985-2021” (2021); além das que promoveram resgates de momentos-chave inscritos em circunstância histórica relacionada, a exemplo da mostra documental “Espaço N.O. 40 anos — Arquivos de uma experiência coletiva” (2019).

 

Francisco Dalcol, diretor-curador do MARGS

Fernanda Medeiros, curadora-assistente do MARGS


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BIO

Dione Veiga Vieira (1954, Porto Alegre, RS) é artista visual que trabalha com diferentes meios como Fotografia, Video, Instalação, Objeto, Escultura, Desenho, Pintura, Livro de artista e Texto. Sua produção baseada em processos perpassa por múltiplos métodos e experimentações desde o uso de materiais naturais e industriais -- nas instalações e objetos -- à investigações Fotográficas que se desenvolvem em poéticas "do corpo e da natureza".

Iniciou a trajetória nos anos '80 com investigações pictóricas, o que a levou a participações em salões nacionais, um prêmio em Pintura, vários destaques em Desenho, e uma residência de três anos na Alemanha onde realizou exposição individual de pinturas-objetos em 1991. Nos anos '90 amplia suas pesquisas -- com o uso de materiais não-tradicionais -- investigando os limites entre Pintura e Escultura, criando objetos instalativos, ao mesmo tempo em que explora a Fotografia, Vídeo e a Fotoperformance. Nos anos 2000, surgem as instalações em diferentes espaços  -- juntamente com a contínua investigação da imagem, valendo-se em alguns trabalhos do caráter narrativo e poético. 

Entre algumas importantes exposições: Exposição Panorâmica - TERREAL - relativa aos 20 anos de atuação (2000 até 2021) no MARGS - Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, em 2021; Exposição Individual - DO MAR PURPÚREO - como artista convidada pelo GOETHE-INSTITUT Brasil - Porto Alegre, em 2012; CONDENSACIONES Y VOLATILIDADES, Casa Tres Patios”, Medellin, Colômbia, em 2010; LEINWAND UND PIGMENT, Galerie SMEND, Köln, Alemanha, em 1991. 

Graduada em Letras e especializada em Artes Visuais pela PUCRS - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

No período entre 1989/1992 residiu na Alemanha onde manteve ateliê no StadtKunst E.V. Köln (Kunst Verein in Köln Ehrenfeld), espaço cultural mantido pela Prefeitura da Cidade de Colônia durante a década de 1990. Com participações em exposições na Alemanha, Colômbia, Reino Unido, e inúmeras outras no Brasil. É uma das artistas destaque do período 2004-2014 do Acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo  - UFRGS, em publicação de catálogo da Instituição em 2015. Possui obras em acervos públicos tais como: MAC-USP - Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, SP; MAC-RS - Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul;  MARGS - Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli; FVCB - Fundação Vera Chaves Barcellos, Viamão, RS, Brasil.

​​Fotógrafa pela agência Getty Images-NY:

Dione Veiga Vieira - Official Photographer Getty Images - New York - NY

Fonte: Dione Veiga Vieira

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Dione Veiga Vieira (1954, Porto Alegre, RS) is a visual artist who works with a variety of media, including photography, video, installation, objects, sculpture, drawing, painting, artist's books, and text. Her process-based work encompasses multiple methods and experiments, from the use of natural and industrial materials in installations and objects to photography that develops into poetics of "the body and nature."

 

She began her career in the 1980s with pictorial investigations, which led to participation in national exhibitions, a Painting Prize, several awards in Drawing, and a three-year residency in Germany, where she held a solo exhibition in 1991. In the 1990s, she expanded her research—using non-traditional materials—exploring the boundaries between painting and sculpture, creating installation objects while also exploring photography, video, and photoperformance. In the 2000s, installations emerged in various spaces—along with continued image exploration, drawing on narrative and poetic elements in some works. 

Among some important exhibitions: Panoramic Exhibition - TERREAL - related to 20 years of activity (2000 to 2021) at MARGS - Museum of Art of Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, in 2021; Solo Exhibition - OF THE PURPLE SEA - as an artist invited by the GOETHE-INSTITUT Brazil - Porto Alegre, in 2012; CONDENSATIONS AND VOLATILITIES, Casa Tres Patios”, Medellin, Colombia, in 2010; LEINWAND UND PIGMENT, Galerie SMEND, Köln, Germany, in 1991. 

Graduated in Literature and specialized in Visual Arts from PUCRS - Pontifical Catholic University of Rio Grande do Sul.

Between 1989 and 1992, she lived in Germany, where she maintained a studio at the  StadtKunst EV Köln (Kunst Verein in Köln Ehrenfeld), a cultural space maintained by the Cologne City Hall during the 1990s. She participated in exhibitions in Germany, Colombia, the United Kingdom, and numerous others in Brazil. She is one of the featured artists of the 2004-2014 period in the Collection of the Pinacoteca Barão de Santo Ângelo - UFRGS, as published in the institution's catalog in 2015. Her works are in public collections such as: MAC-USP - Museum of Contemporary Art of the University of São Paulo, SP; MAC-RS - Museum of Contemporary Art of Rio Grande do Sul; MARGS - Museum of Art of Rio Grande do Sul Ado Malagoli; FVCB - Vera Chaves Barcellos Foundation, Viamão, RS, Brazil.





Photographer for Getty Images-NY:

Dione Veiga Vieira - Official Photographer Getty Images - New York - NY



+EXTREMOS






Experimental, extraordinário, extremo. O sufixo que exprime o fora expõe as zonas críticas de paisagens internas e externas. Quando a arte eleva  o campo do vivido ao seu grau extremo de intensidade, zonas críticas do pensamento parecem se estratificar, formando sedimentações na mente (parafraseando Robert Smithson), fissuras ao aberto, ao fora, ao cosmos. O que as artistas Adriana Tabalipa, Cláudia Paim e Dione Veiga Vieira propõem, implica em  estabelecer uma relação com o saber, sentir e pensar através dos extremos da consciência. Materialidades distintas, imagens, corpo, som. Cruzando estes elementos, criam-se combinações de olhares propositivos, experimentais, fora do perímetro habitual da vida ordinária. O que nos dão a ver, sentir, pensar e escutar, dilata nossa relação com a existência, constituída pela insistência no porvir. Poéticas que se misturam, obras em trânsito, acontecimentos. Extremos nos colocam em suspensão.

Cláudia e Dione já haviam realizado uma primeira edição desta mostra no ano de 2013, no Plataforma Espaço de Criação, em Porto Alegre. Evidenciava-se naquele momento a maturação de um processo de trabalho em dupla, onde as especificidades das suas poéticas alimentavam-se mutuamente numa rica troca afetiva. As linguagens apresentadas naquela ocasião, fotografia, vídeo, instalação e performance, retornam nesta exposição, potencializadas por um novo encontro.Agora, no Espaço Cultural Feevale, em Novo Hamburgo, as duas artistas convidaram Adriana Tabalipa, que procurou fazer um diálogo com as suas obras, realizando uma instalação formada por desenhos com formas orgânicas, numa intersecção direta com os materiais utilizados por Dione e Cláudia. Ressalta-se um sentimento de mistura com a natureza, no que esta oferece enquanto campo de existência para o corpo. Espaço de espraiamento dos sentidos. Cláudia apresenta uma performance na qual articula elementos advindos de uma experiência direta: conchas, ruídos, sonoridades que parecem emergir de uma praia imaginária, de um litoral situado nas imediações da ficção, nas extremidades do real.

Misturas e trocas de percepções fazem desta exposição um exercício de alteridade e generosidade entre as artistas. Como se um dos materiais expressivos mais potente deste processo em trânsito fosse a aproximação entre Adriana, Cláudia e Dione.