Sobre A Liquefação e a Decantação

 





A exposição "A Liquefação e a Decantação" de Dione Veiga Vieira, ocorreu na Galeria Gestual, entre 13 de setembro a 24 de outubro de 2008, em Porto Alegre.


Por Ronald Augusto:
"O caso de Dione Veiga Vieira, talvez em função dessa condição privilegiada de criadora ambidestra - haja visto ser poeta e artista visual -, ou que outra explicação se tente, sempre me pareceu interessante. Sua confiança na autonomia da linguagem poética se revela tão jubilosa em sua luminosidade carnal, que não é justo mostrar indiferença frente às imagens que povoam Matiz de Estação (1983), infelizmente, diga-se de passagem, o primeiro e único livro de Dione até agora. Mas, aqui, e por ocasião da exposição individual que em breve será inaugurada, direi algumas palavras sobre sua arte não-verbal.

Suas obras plásticas ou seus objetos algo brossianos, de pendor intersemiótico, se configuram numa espécie de outra dimensão dos belos poemas-texto que conhecemos. Seus objetos não-utilitários são coisas-pulsões, signância a contravento de uma ratio medianeira, objetos de linguagem. Mais do que uma representação do mundo, eles se convertem em invenção de um mundo à parte, sem margens precisas, que obedece à gravidade e leis próprias.

Quando comparo tanto os trabalhos visuais, quanto a poesia conquistada e realizada por Dione Veiga em Matiz de Estação à “uma cartografia equívoca” — mapeamento multilingual de pequenos utensílios e signos que pensam a sua própria ausência corrosiva —, minha intenção é a de valorizar a beleza do discurso poético-imagético como algo livre e aberto, algo no qual o leitor-fruidor não pode depositar suas esperanças de redenção, nem esperar que a partir de tal realidade cambiante depare um rumo para as suas angústias existenciais, etc. A poesia nos convida a uma participação não-crédula, álacre. Do meu ponto de vista, o qualificativo “equívoco” representa um ganho, uma chave de leitura para toda a grande poesia ou obra de arte que, ao fim e ao cabo, por meio de suas linguagens, nos dão a possibilidade de ampliação dos limites de sentido do nosso mundo. E Dione, através de sua arte, nos oferece isso."

Topografias da Carne



Primal, 2000. Na exposição PRIMAL no MAC-RS, em 2023.

Por Paula Ramos*

[...]   Em Limites, exposição individual que Dione apresentou em 2000, um sentimento de organicidade estava bem presente. Rasgos na superfície da tela e nos corpos volumétricos remetiam a feridas cutâneas, a erupções. E, mesmo que a artista não estivesse propondo esse tipo de leitura, ela parece inevitável, uma vez que, ou por similitude, ou por organicidade, nossa percepção nos leva a traçar relações com o que está próximo e é reconhecível. Primal, instalação que Dione apresenta neste momento, é um desdobramento de Limites, assim como a própria mostra Limites havia sido um prolongamento de suas obras anteriores. 


Dione Veiga Vieira. Memória Primal, 1999/2000. Técnica mista. Acervo MARGS.

Dione Veiga Vieira. Primal, 2001. Detalhe. Acervo MAC-RS.





Dione Veiga Vieira. Alma do Mundo, 2000. Acervo MARGS.


Dione propõe, nesse caso, duas séries de trabalhos que, embora diferentes, mantêm um diálogo íntimo entre si. A primeira delas se constitui de seis imponentes corpos suspensos no teto e de uma inusitada esfera. A uma primeira vista, eles podem sugerir robustos pedaços de carne aguardando a dilaceração. Já a segunda série é formada também por seis grandes trabalhos, dessa vez sobre papel. Nem pintura, tampouco desenho, esses últimos são carregados de texturas e de materialidade, próprias da poética da artista. 

Dione Veiga Vieira. Memória Primal, 1999/2000 (ao fundo, à esquerda) e 2001(a direita). 
Na exposição panorâmica TERREAL, no MARGS em 2021/22.


Tomemos, por ora, os corpos. Constituídos de algodão e do acúmulo de camadas de estopa umas sobre as outras, esses volumes pulsam. Exalam uma energia visceral, que se manifesta, sobretudo, na textura e na cor, no aspecto de tecido humano, com suas artérias e capilares. Uma energia que nos convida a olhar de perto e a descobrir os orifícios e as saliências que parecem querer ejetar secreções. Essas formações alongadas ou escarafunchadas no seio do material são obsessivas no trabalho de Dione, desde quando ela trabalhava com a bidimensionalidade da tela, sobretudo no início da década de 90. 

Ao longo de boa parte dos anos 90, por uma série de injunções pessoais, Dione manteve-se afastada das galerias, não expondo. Quando voltou, porém, foi com carga plena. Limites marca esse retorno de maneira exuberante, ao posicionar o tipo de pesquisa que lhe interessava: uma investigação calcada em formas orgânicas e na utilização de suportes e materiais pouco convencionais. A maioria das formas então apresentadas partia de projeções volumétricas vindas do suporte tela. Outras constituíam corpos alongados confeccionados com algodão, preenchidos com espumas e tendo na superfície areia, parafina e espinhos de ouriço-do-mar. Esse último trabalho, intitulado de Memória Primal, foi o precursor da instalação Primal. Em Limites, portanto, Dione reafirmou a urgência e a necessidade de elementos orgânicos, incluindo saliências, orifícios, espaços de respiro e de cruzamento entre os planos interno e externo das obras, sendo que os materiais utilizados e a forma como eram aplicados evidenciavam esse caráter de organicidade.

Nos grandes corpos que constituem Primal, a artista mantém esses elementos, mas vai além, conquistando uma tridimensionalidade que em Limites estava apenas em gestação. Incorpora, também, a tinta não como uma mera possibilidade de cor, mas como uma massa que se funde à estopa e aos cordões que a prendem, criando uma espécie de amálgama. A fusão desses elementos constitui um relevo singular, uma topografia quase corpórea. E se, em um primeiro momento, esses corpos podem gerar até mesmo repulsa, tal impacto é suavizado ao se caminhar por entre eles, ao tocá-los e ao se sentir as rugosidades e as texturas da superfície.   

Já os trabalhos sobre papel, que também integram essa exposição, surgiram em um segundo momento e trazem uma importante carga expressionista. Dione, que sempre apreciou o desenho, resgatou o papel primeiramente como um exercício, a fim de desenhar os corpos que criava em algodão. Fazia-os com grafite e com bastões de tinta a óleo. A curiosidade a levou a despejar, sobre os mesmos, parafina derretida. Uma, duas, às vezes três camadas, extrapolando os limites do papel. À medida que o material secava, sentia-se motivada a fazer novos desenhos, dessa vez com a espátula, rapidamente. Não demorou para que acrescentasse também a própria estopa. Essa, fundida à parafina, criou inusitados desenhos e espessas texturas. Em alguns casos, Dione chegou a queimar a estopa, permitindo que o fluxo da combustão originasse uma nova linha. Em outros, ressecou a superfície, ao pressioná-la contra a chapa metálica ardente onde derretera a parafina. Criou, dessa forma, novas manchas, acentuando o caráter oleoso do material. A artista diz que, para ela, essas intervenções são como ferimentos, assim como o são a estopa queimada e as ranhuras na face do trabalho. Pode ser. Sua poética, de fato, parece remeter a metáforas que aludem à finitude, ao dilaceramento, à vida, mas também à morte. 

Esses trabalhos sobre papel trazem muitas referências de obras anteriores, principalmente dos monocromáticos, produzidos no final dos anos 80 e início dos 90. Naqueles, Dione já demonstrara seu interesse pelas possibilidades da cor e pelas texturas, apresentando grandes pinturas de uma única cor, porém em gradações diversas e com superfícies rugosas, alcançadas com a adição de areia e de pigmentos diversos. Os trabalhos sobre papel atuais trilham o mesmo caminho, explorando sutilezas do grafite, de certos dourados e também a gordura e opacidade típica da parafina, mas sem esquecer do peso da materialidade, da importância dos elementos agregados ao suporte, das topografias, tão viscerais para a artista.  

Plenamente segura no que faz, Dione Veiga Vieira nos oferece uma linguagem que nada tem de cômoda. Pelo contrário, incomoda, sim. Mas o que seria da arte, se não propusesse transgressões, rupturas, inquietações? 

*Paula Ramos - Professora, Crítica e Curadora. Doutora em História, Teoria e Crítica de Arte pelo Instituto de Artes da UFRGS.

TOPOGRAFIAS IMAGINÁRIAS NA PINTURA DE DIONE VEIGA VIEIRA


Dione Veiga Vieira. Pintura s/título, 1988. Pó xadrez, areia, esmalte sintético, madeira e sacola plástica sobre tela. Coleção Icleia Cattani.



TOPOGRAFIAS  IMAGINÁRIAS NA PINTURA 

DE DIONE VEIGA VIEIRA


Por  *Icléia  Borsa  Cattani 



Vermelhos e Amarelos

   Preocupação fundamental no trabalho de Dione Veiga Vieira .Trabalhar com o vermelho, laranja, amarelo, contrapondo-os a azuis e verdes. Nos trabalhos anteriores (83 – 84), muitas combinações binárias (vermelho - azul, laranja - verde) , às vezes, a utilização de três ou quatro cores, quase nunca mais do que isso. Cores puras. Cor - brilho, brilho direto  da tinta esmalte, acentuando certas qualidades da cor, escamoteando outras. A partir de 1986, começam a surgir, de modo mais sistemático, trabalhos monocromáticos, primeiramente em azul, que chegam até a fase atual: grandes telas, grandes superfícies de uma única cor em gradações diversas. A opacidade atual revela outras qualidades da cor, sutilezas de gradações antes impossíveis, força maior da cor - textura.



Panos  e Areias


   O trabalho com a cor acompanha-se de um trabalho com texturas. As investigações com texturas  são antigas: desde 1983, emprego de papel, panos, telas de plástico de trama aberta, pó de mármore e , atualmente , areia. Materiais colados sobre a tela do suporte, surgindo num processo que envolve simultaneamente, sem uma ordem predeterminada, a cor e a textura. As preocupações antigas, manchas e zonas de cor, formas com ou sem limites, ganharam outro peso com a utilização dos novos materiais – areia, pó xadrez – que foram permitindo uma liberdade cada vez maior no tratamento das formas e cores. As texturas visuais, criadas através de traços e pinceladas justapostas, desapareceram totalmente, em benefício das texturas reais que criam relevos em ocre, em terra, em vermelho ou marrom. Topografias imaginárias.





Telas e chassis


    “O suporte como objeto de pintura” *. A tela e o chassis, trabalhados de modo não-tradicional: quanto ao seu  formato, quanto aos seus limites, quanto à sua estrutura. Desde 1983, essas questões aparecem de modo recorrente. Nesse ano, um quadro como “Pandorga” já  evidencia a questão do formato irregular, que se tornará  mais sistemático com o correr do tempo. Ainda em 83, aparecem as telas pintadas nos dois lados (verso e reverso), criando  um quase - objeto, forçosamente manipulável, para que se possa ter uma visão do todo... Por outro lado, na mesma  época  Dione inicia  também  a pintura das bordas laterais do chassis.

   Em 1987, aparecem telas  com pedaços de madeiras nas laterais, que ultrapassam o tamanho do chassis, contribuindo de outra forma  para a criação de formatos irregulares. Esses pedaços de madeira, anexos à tela , modificam substancialmente o conjunto, dando à pintura um aspecto mais primitivo. Surgiram de certa forma de um jogo, de uma atração pelo material (madeira). Dione recolhia pedaços de madeira na rua, nos restos das madeireiras, para construir  os chassis de suas telas. Aos poucos, surgiu o desejo  de jogar com esses elementos, anexando-os à tela pronta. Às vezes pintados, às vezes ao natural, eles invadiram também o interior da tela, acrescentando-se aos elementos de textura já existentes. Mas, fixados à tela, não permitiam um jogar com a forma, desejo que foi aumentando com o tempo.


   Os quadros - dípticos, surgidos em 1988, permitem  novos jogos. Primeiramente, a própria construção do chassis, de formato irregular no qual são aproveitados pedaços de madeira similares  aos que eram justapostos anteriormente. Ou seja, as dimensões dessas madeiras são levadas em conta, influem no formato final do chassis...  Em  segundo lugar, o jogo aparece com os “encaixes - divisões”  * dos dípticos, “criando campos de atração  entre as partes e , ao mesmo tempo, dando autonomia às mesmas”*. Os dípticos possuem , realmente, formatos inusitados, que permitem o encaixe das formas, ou a sua divisão... Embora dípticos, não são presos um ao outro, como acontecia anteriormente (1986). O espaço existente entre as duas partes é vital , acaba sendo constitutivo da obra – “respiros” , aberturas internas / externas , que mexem  ao mesmo tempo com  o conceito tradicional de díptico e com as concepções de interior-exterior. Outra questão importante. O espaço interno, da cor - textura, nasce após definição (arbitrária) do formato suporte. Esse aparece pois, realmente, como “objeto de pintura”* , como aquilo que define a priori o campo de projeção  do imaginário.



(DES) Encaixes


   Cria-se um jogo sutil entre as formas do suporte, que deveriam ser nítidas (para permitir os encaixes imaginários), e as bordas da tela deixadas soltas sobre o chassis e “pintadas como extensão do próprio espaço de pintura” *, criando “flous”, desfazendo em partes os limites, desmentindo em parte os encaixes possíveis.


   Esse jogo com os limites vem de longe. Está presente nas telas pintadas dos dois lados. Está presente, significativamente, no título da primeira exposição individual, “Quadras de destrinça”.  Está presente nas formas internas ao campo pictórico, que foram progressivamente perdendo os limites até tornarem-se um amálgama, uma forma única, cujas diferenças são marcadas apenas por sutilezas de tons e de texturas.



Paisagens – topografias


   Nos trabalhos mais  antigos , pode-se discernir, em função da disposição interna das formas , como que paisagens imaginárias. Aqui, um corte horizontal  no espaço, que sugere uma linha de horizonte; acolá , dois cortes semi - circulares , sugerindo montanhas e um vale. Dessas paisagens imaginárias , Dione fotografava  detalhes, que evidenciavam muitas vezes manchas, amálgamas de cores, que passavam desapercebidas no contexto geral da pintura. Esses macros - detalhes constituem , transformados pelas texturas, as formas – cores das telas atuais, as topografias imaginárias.


   Essas topografias fazem com que os espaços entre as partes dos dípticos apareçam como fendas, falhas geológicas – continentes separados, que mexem com sentimentos primitivos. Qual deles ?  A perdida Atlântida ?





-  Entrevista de Dione Veiga Vieira à autora , Dezembro / 1988.


**  -  Icleia   Borsa Cattani

         Crítica de arte, doutora em História da Arte, professora titular do Instituto de Artes da UFRGS, professora visitante no doutorado em Artes Plásticas da Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne).