Primal, 2000. Na exposição PRIMAL no MAC-RS, em 2023.
Por Paula Ramos*
[...] Em Limites, exposição individual que Dione apresentou em 2000, um sentimento de organicidade estava bem presente. Rasgos na superfície da tela e nos corpos volumétricos remetiam a feridas cutâneas, a erupções. E, mesmo que a artista não estivesse propondo esse tipo de leitura, ela parece inevitável, uma vez que, ou por similitude, ou por organicidade, nossa percepção nos leva a traçar relações com o que está próximo e é reconhecível. Primal, instalação que Dione apresenta neste momento, é um desdobramento de Limites, assim como a própria mostra Limites havia sido um prolongamento de suas obras anteriores.
Dione propõe, nesse caso, duas séries de trabalhos que, embora diferentes, mantêm um diálogo íntimo entre si. A primeira delas se constitui de seis imponentes corpos suspensos no teto e de uma inusitada esfera. A uma primeira vista, eles podem sugerir robustos pedaços de carne aguardando a dilaceração. Já a segunda série é formada também por seis grandes trabalhos, dessa vez sobre papel. Nem pintura, tampouco desenho, esses últimos são carregados de texturas e de materialidade, próprias da poética da artista.
Tomemos, por ora, os corpos. Constituídos de algodão e do acúmulo de camadas de estopa umas sobre as outras, esses volumes pulsam. Exalam uma energia visceral, que se manifesta, sobretudo, na textura e na cor, no aspecto de tecido humano, com suas artérias e capilares. Uma energia que nos convida a olhar de perto e a descobrir os orifícios e as saliências que parecem querer ejetar secreções. Essas formações alongadas ou escarafunchadas no seio do material são obsessivas no trabalho de Dione, desde quando ela trabalhava com a bidimensionalidade da tela, sobretudo no início da década de 90.
Ao longo de boa parte dos anos 90, por uma série de injunções pessoais, Dione manteve-se afastada das galerias, não expondo. Quando voltou, porém, foi com carga plena. Limites marca esse retorno de maneira exuberante, ao posicionar o tipo de pesquisa que lhe interessava: uma investigação calcada em formas orgânicas e na utilização de suportes e materiais pouco convencionais. A maioria das formas então apresentadas partia de projeções volumétricas vindas do suporte tela. Outras constituíam corpos alongados confeccionados com algodão, preenchidos com espumas e tendo na superfície areia, parafina e espinhos de ouriço-do-mar. Esse último trabalho, intitulado de Memória Primal, foi o precursor da instalação Primal. Em Limites, portanto, Dione reafirmou a urgência e a necessidade de elementos orgânicos, incluindo saliências, orifícios, espaços de respiro e de cruzamento entre os planos interno e externo das obras, sendo que os materiais utilizados e a forma como eram aplicados evidenciavam esse caráter de organicidade.
Nos grandes corpos que constituem Primal, a artista mantém esses elementos, mas vai além, conquistando uma tridimensionalidade que em Limites estava apenas em gestação. Incorpora, também, a tinta não como uma mera possibilidade de cor, mas como uma massa que se funde à estopa e aos cordões que a prendem, criando uma espécie de amálgama. A fusão desses elementos constitui um relevo singular, uma topografia quase corpórea. E se, em um primeiro momento, esses corpos podem gerar até mesmo repulsa, tal impacto é suavizado ao se caminhar por entre eles, ao tocá-los e ao se sentir as rugosidades e as texturas da superfície.
Já os trabalhos sobre papel, que também integram essa exposição, surgiram em um segundo momento e trazem uma importante carga expressionista. Dione, que sempre apreciou o desenho, resgatou o papel primeiramente como um exercício, a fim de desenhar os corpos que criava em algodão. Fazia-os com grafite e com bastões de tinta a óleo. A curiosidade a levou a despejar, sobre os mesmos, parafina derretida. Uma, duas, às vezes três camadas, extrapolando os limites do papel. À medida que o material secava, sentia-se motivada a fazer novos desenhos, dessa vez com a espátula, rapidamente. Não demorou para que acrescentasse também a própria estopa. Essa, fundida à parafina, criou inusitados desenhos e espessas texturas. Em alguns casos, Dione chegou a queimar a estopa, permitindo que o fluxo da combustão originasse uma nova linha. Em outros, ressecou a superfície, ao pressioná-la contra a chapa metálica ardente onde derretera a parafina. Criou, dessa forma, novas manchas, acentuando o caráter oleoso do material. A artista diz que, para ela, essas intervenções são como ferimentos, assim como o são a estopa queimada e as ranhuras na face do trabalho. Pode ser. Sua poética, de fato, parece remeter a metáforas que aludem à finitude, ao dilaceramento, à vida, mas também à morte.
Esses trabalhos sobre papel trazem muitas referências de obras anteriores, principalmente dos monocromáticos, produzidos no final dos anos 80 e início dos 90. Naqueles, Dione já demonstrara seu interesse pelas possibilidades da cor e pelas texturas, apresentando grandes pinturas de uma única cor, porém em gradações diversas e com superfícies rugosas, alcançadas com a adição de areia e de pigmentos diversos. Os trabalhos sobre papel atuais trilham o mesmo caminho, explorando sutilezas do grafite, de certos dourados e também a gordura e opacidade típica da parafina, mas sem esquecer do peso da materialidade, da importância dos elementos agregados ao suporte, das topografias, tão viscerais para a artista.
Plenamente segura no que faz, Dione Veiga Vieira nos oferece uma linguagem que nada tem de cômoda. Pelo contrário, incomoda, sim. Mas o que seria da arte, se não propusesse transgressões, rupturas, inquietações?
*Paula Ramos - Professora, Crítica e Curadora. Doutora em História, Teoria e Crítica de Arte pelo Instituto de Artes da UFRGS.




