LABORATÓRIO POÉTICO












“As obras, segundo certa compreensão comum, confundem-se com o artista: seriam espelhos de sua consciência, fragmentos de sua ontologia, estratos de um tempo específico que, por forças não inteiramente cognoscíveis, transmigraram do ser (o artista) para a coisa (a obra). Cosmologias animistas, tão antigas quanto as primeiras e assombrosas pinturas das cavernas, reconheciam uma vida consciente no interior das cachoeiras e das pedras, nos auroques e em outras presenças do mundo. Como se a vida íntima das coisas murmurasse, impetuosa e plena de augúrios, ao nosso redor.


Entre essa animação do mundo e a ideia de que a obra espelha o artista existe uma diferença decisiva. Ambas, contudo, parecem tocar uma antiga disposição: imaginar que algo da vida interior possa alojar-se na matéria. Pigmaleão — ou, muito depois, o retrato de Dorian Gray — encena, em registros distintos, essa fronteira porosa: a criatura recebe vida; o retrato recebe e manifesta aquilo que seu modelo deixa de carregar. Talvez encontre abrigo nessa mesma porosidade o equívoco, quase atávico, de considerar as obras de um artista como extensões de sua identidade. Talvez seja este um dos mitos sociais mais persistentes. É como se confundíssemos a casca de uma semente com a árvore ou habitássemos a sombra de um prédio. Este é nosso plot twist — ou, para aqueles que acreditam que nossa língua nos basta, nossa reviravolta: as obras são concreções na vida de um artista, corpos estranhos lentamente recobertos de matéria, como a pérola para uma ostra.

Laboratório Poético — processos e projetos, instalação de Dione Veiga Vieira, ilumina a etiologia desse mito. É uma estranha exposição despossuída de qualquer obra: nela resta apenas o osso, a linha tênue da anatomia do pensamento que a constitui. Um moto-contínuo no qual essas semiobras — como o “ouro velho” que ouvimos nas ruas — surgem como um ponto final ou uma vírgula em uma frase (ou, como fantasmas).

O laboratório poético de Dione é um ofício que nunca se encerra — as palavras laboratório e trabalho, ambas nascidas do labor, são univitelinas. Suas obras liquefazem-se, transubstanciam-se, decantam ou evolam. São âncoras mnemônicas de alguém que tenta, infrutiferamente, rememorar um sonho olvidado: as estranhas bordas de um rio durante uma enchente.

Indefinidamente incompletas, suas obras ladram sem cessar em sua consciência, instigadas pelo demônio de Descartes: uma instalação projeta sua sombra sobre um útero; o desenho de uma corrente lança seus elos sobre o corpo, ainda latente, de um touro; um ovo torna-se o núcleo da Terra e, num único fôlego, um conciso palíndromo.
A mecânica desse pensamento importa mais que a soma de todas as obras, não apenas porque tende ao ilimitado, mas porque age como uma possessão: uma língua de matérias densas, hinos em glossolalia, símbolos arcanos de outras espécies de hominídeos; palavras em guarda, ainda não manifestas, como dentes prontos para lacerar.”

Cattani - Klamt

Agosto/2026.