por Ricardo Romanoff
O caráter instalativo do conjunto, observado pela dupla de curadores, é uma das primeiras impressões que se tem ao ingressar na galeria Iberê Camargo do MARGS, onde está a maior parte da exposição. O espaço cria um lugar de encontro entre obras que evocam o corpo habitando o ambiente doméstico, de um lado, e imerso na natureza, de outro.
No primeiro eixo, evidencia-se o interesse da artista pela ressignificação de objetos, como nos bancos de Antessala (2008-2013), modificados com a inclusão de utensílios de cozinha e outros itens. Em Fragmentos Primordiais (2004), uma prateleira passa a conter ganchos de açougue. Na obra Decantação III (2008), uma estante reúne 47 vasos azuis com bordas que remetem a flores. Ao lado, a série fotográfica Solutilis(2011) descontextualiza as formas desses vasos aludindo a imagens microscópicas de materiais orgânicos e fotos internas do corpo humano.
“Imaginei os vasos como corpos, cada um diferente do outro”, conta Vieira, que encontrou os utensílios em uma loja de bairro e teve a atenção despertada pelas variações – defeitos de fabricação? – de suas formas. A ida recorrente ao estabelecimento para comprar quase meia centena de vasos deixou o vendedor desconfiado. “Ele perguntou se eu estava revendendo”, diverte-se.
O dado corriqueiro da construção do trabalho é um exemplo de como o olhar de Vieira se transformou duas décadas atrás. “Quando larguei a pintura definitivamente, tudo virou ateliê para mim. Ao explorar mais a fotografia e os objetos, meu pensamento foi mudando. Comecei a trabalhar ideias relacionadas ao corpo e à natureza, sempre com a carga evocativa dos materiais. O mundo à minha volta se transformou no substrato da minha produção”, reflete a artista.
Outra questão cara à Vieira são os processos de transformação. “Nada perdura, tudo está sempre se modificando”, observa. Em trabalhos como Zona de Metamorfismo(2015), a artista insere textos nas fotografias, articulando termos da geologia e da psicanálise para abordar as mudanças pelas quais passam o humano e a paisagem em suas diferentes temporalidades.
Sala Oscar Boeira reúne obras que marcam inflexão na trajetória de Vieira

A exposição continua na sala Oscar Boeira com obras produzidas entre 1999 e 2001 – além de três mais antigas, do começo dos anos 1990 – que marcam a guinada de Vieira em direção à fotografia, ao vídeo e à instalação. “Rompi com a pintura, mas já estava fazendo telas recortadas como se fossem objetos e esculturas de parede. Foi o término de uma pesquisa com materiais e já havia uma proposta instalativa”, observa Vieira, aos 67 anos, refazendo o percurso que a levou de obras como Primal (2001) aos trabalhos expostos na galeria Iberê Camargo do MARGS.
Enquanto nas obras da galeria preponderam o azul do céu e do mar, além de tons escuros e metálicos, na sala Oscar Boeira as tonalidades terrosas ganham evidência, dialogando com o título da exposição, descrito da seguinte forma pelo texto assinado pelos curadores:
Terreal. Adjetivo que designa o que é relativo à terra, terrestre. E também o mundano, dos prazeres terreais, consequentemente do corpo. Dito de outro modo, aquilo se situa entre o terreno e o humano: o real objetivo, mas também a realidade enquanto invenção, efeito da maneira de ver e perceber, de compreender e se situar. Fabulação e ficção a partir do que está dado e colocado. Daí, a arte como construção de realidades.





