Texto de Paola Fabres publicado no Catálogo Geral da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo - Instituto de Artes - UFRGS

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                                                                  Extremos, 2013
                                                                  Videoperformance, 9’36

Dione Veiga Vieira (Porto Alegre, RS, 1954) inicia sua trajetória investigando a disciplina pictórica e, posteriormente, amplia sua experimentação para outros suportes e matérias. Seu trabalho, que já percorreu os diversos formatos, desde a pintura, o desenho, a fotografia e o vídeo, explora conjunções entre elementos: corpo e objeto simbólico, reunidos pelo estranhamento e assinalados por uma genealogia surrealista, frequentemente presente em sua linguagem visual. Graduada em Letras e especializada em Artes Visuais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, a artista provoca constantemente esse visível interstício entre artes plásticas e a literatura; assim, o aspecto semântico torna-se protagonista na leitura de suas obras. Frequentou o Atelier Livre da Prefeitura na década de 1970 e, de 1989 a 1992, viveu na cidade de Colônia, na Alemanha, onde atuava no ateliê StadKunst E.V. Köln, espaço cultural mantido pela Prefeitura da cidade.  

Seu trabalho Extremos, realizado em parceria com a artista e performer Claudia Paim (Porto Alegre, RS, 1961), nasceu em agosto de 2013. Surgiu de forma espontânea, ao somar o interesse mútuo das artistas em trabalharem juntas em um só projeto. A ideia da ação ocorreu alguns meses antes, durante a intervenção Da emoção das coisas, proposta por Dione na sala de escultura Fernando Corona, do Instituto de Artes da UFRGS. A atividade era um convite da artista e professora Maria Ivone dos Santos (1958), integrando o projeto Perdidos no Espaço. Pela sala, Dione instalou fotografias e vídeos, realizando uma intervenção junto ao pequeno jardim que se encontra em anexo à sala. Ali, em meio às árvores que se projetam e ao espaço de dificílimo acesso, inseriu um objeto suspenso. Presente durante a atividade, Claudia Paim é sensibilizada e, a partir desse cenário, propõe a execução de uma performance em colaboração com Dione.

Dione controla a cena, a imagem; Claudia assume o posto performático. Em um dia frio de agosto, imersa em um cenário fechado por matas e folhagens, ao se apropriar do objeto trazido por Dione, Claudia mergulha em uma relação vagarosa e enigmática estabelecida entre seu corpo e uma pequena esfera de vidro brilhante. Introspectiva e silenciosamente, percebe-se uma conexão de cunho poético entre o corpo natural e o espaço orgânico, a partir de um olhar feminino que evoca sua matéria sensível em diálogo com a esfera translúcida. "As texturas do objeto capturam e refletem parte da luz e as dimensões intimistas, deixando vazar as cores úmidas do ambiente" (FONTOURA, 2013). Sua identidade não se revela. Seu rosto permanece encoberto por cabelos e folhas secas. Manipula gentil e pausadamente essa esfera de vidro que se abraça por um rede de pesca. Aqui, o corpo nu e primitivo se esconde por detrás da matéria; por uma matéria que se faz aprisionada, atada às circunstâncias. 

Tanto a esfera como a tarrafa nos remetem a algo familiar. É possível associar com os objetos relacionais de Lygia Clark (1920–1988) ou, ainda, aos trabalhos pendentes de Tunga (152) –Bell's Fall –, nos quais a teia, em sua leveza, serve como elemento de sustentação da matéria sólida. No vídeo Extremos, a esfera nos sugere o peso, enquanto a rede, assemelhando-se a essa teia, serve como seu oposto. Uma vez articulados, esses elementos se estabilizam, neutralizando-se um com o outro. Assim, conceito, matéria, peso e plasticidade passam a se fundir na totalidade da imagem de Dione. Em seus trabalhos, o que sustenta a leveza é o próprio peso.

A ação é toda registrada por Dione Veiga Vieira. Além disso, auxiliada por Yuri Veiga (Porto Alegre, RS, 1970), a artista ralenta as imagens na edição de vídeo, criando um movimento de estagnação que se alterna ao longo de um desenrolar que já é vagaroso por si mesmo. A artista evoca uma potência simbólica, a partir de um ponto de vista feminino, apenas ao apresentar o manejo com a matéria, com o orgânico, a partir de movimentos lentos e quase imperceptíveis. Essa capacidade de apropriação e ressignificação é constante em muitos de seus outros trabalhos. Segundo Angélica de Moraes, "Dione instala estranhamentos eficazes ao reunir coisas banais e imantá-las de novos significados. As coisas são elas próprias e algo mais. Esse algo brota do inconsciente para costurá-las de sentido". Assim, seu universo constitui-se a partir de um "vocabulário surreal" (MORAES, 2004). Lembrando de sua relação próxima com o universo das Letras, não se torna estranho pensar que a figura de linguagem da metáfora torne-se tão presente em suas expressões visuais, atuando como recurso para a reflexão sobre a arte e a vida.
A performance concebida pelas artistas deu margem ao prosseguimento da parceria. O vídeo Extremos abriu caminho para uma exposição de mesmo nome, realizada em outubro de 2013, no espaço de criação Plataforma, localizado na Zona Sul de Porto Alegre. Além do vídeo, a exibição apresentou outra performance de Claudia Paim e fotografias de ambas artistas. 

Paola Fabres
2015

O vídeo EXTREMOS 2013 de Dione Veiga Vieira consta como obra em Destaque do Acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo - Instituto de Artes - UFRGS, no Catálogo Geral da Instituição. O livro com organização de Paulo Gomes foi lançado no dia 17 de agosto de 2015, na UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. As referências sobre o trabalho são abordadas em texto de apresentação  por Paola Fabres, Pág. 658/ VOL. II.