TOPOGRAFIAS IMAGINÁRIAS NA PINTURA DE DIONE VEIGA VIEIRA

Por  *Icléia  Borsa  Cattani 





Vermelhos e Amarelos

   Preocupação fundamental no trabalho de Dione Veiga Vieira .Trabalhar com o vermelho, laranja, amarelo, contrapondo-os a azuis e verdes. Nos trabalhos anteriores (83 – 84), muitas combinações binárias (vermelho - azul, laranja - verde) , às vezes, a utilização de três ou quatro cores, quase nunca mais do que isso. Cores puras. Cor - brilho, brilho direto  da tinta esmalte, acentuando certas qualidades da cor, escamoteando outras. A partir de 1986, começam a surgir, de modo mais sistemático, trabalhos monocromáticos, primeiramente em azul, que chegam até a fase atual: grandes telas, grandes superfícies de uma única cor em gradações diversas. A opacidade atual revela outras qualidades da cor, sutilezas de gradações antes impossíveis, força maior da cor - textura.



Panos  e Areias


   O trabalho com a cor acompanha-se de um trabalho com texturas. As investigações com texturas  são antigas: desde 1983, emprego de papel, panos, telas de plástico de trama aberta, pó de mármore e , atualmente , areia. Materiais colados sobre a tela do suporte, surgindo num processo que envolve simultaneamente, sem uma ordem predeterminada, a cor e a textura. As preocupações antigas, manchas e zonas de cor, formas com ou sem limites, ganharam outro peso com a utilização dos novos materiais – areia, pó xadrez – que foram permitindo uma liberdade cada vez maior no tratamento das formas e cores. As texturas visuais, criadas através de traços e pinceladas justapostas, desapareceram totalmente, em benefício das texturas reais que criam relevos em ocre, em terra, em vermelho ou marrom. Topografias imaginárias.





Telas e chassis


    “O suporte como objeto de pintura” *. A tela e o chassis, trabalhados de modo não-tradicional: quanto ao seu  formato, quanto aos seus limites, quanto à sua estrutura. Desde 1983, essas questões aparecem de modo recorrente. Nesse ano, um quadro como “Pandorga” já  evidencia a questão do formato irregular, que se tornará  mais sistemático com o correr do tempo. Ainda em 83, aparecem as telas pintadas nos dois lados (verso e reverso), criando  um quase - objeto, forçosamente manipulável, para que se possa ter uma visão do todo... Por outro lado, na mesma  época  Dione inicia  também  a pintura das bordas laterais do chassis.

   Em 1987, aparecem telas  com pedaços de madeiras nas laterais, que ultrapassam o tamanho do chassis, contribuindo de outra forma  para a criação de formatos irregulares. Esses pedaços de madeira, anexos à tela , modificam substancialmente o conjunto, dando à pintura um aspecto mais primitivo. Surgiram de certa forma de um jogo, de uma atração pelo material (madeira). Dione recolhia pedaços de madeira na rua, nos restos das madeireiras, para construir  os chassis de suas telas. Aos poucos, surgiu o desejo  de jogar com esses elementos, anexando-os à tela pronta. Às vezes pintados, às vezes ao natural, eles invadiram também o interior da tela, acrescentando-se aos elementos de textura já existentes. Mas, fixados à tela, não permitiam um jogar com a forma, desejo que foi aumentando com o tempo.


   Os quadros - dípticos, surgidos em 1988, permitem  novos jogos. Primeiramente, a própria construção do chassis, de formato irregular no qual são aproveitados pedaços de madeira similares  aos que eram justapostos anteriormente. Ou seja, as dimensões dessas madeiras são levadas em conta, influem no formato final do chassis...  Em  segundo lugar, o jogo aparece com os “encaixes - divisões”  * dos dípticos, “criando campos de atração  entre as partes e , ao mesmo tempo, dando autonomia às mesmas”*. Os dípticos possuem , realmente, formatos inusitados, que permitem o encaixe das formas, ou a sua divisão... Embora dípticos, não são presos um ao outro, como acontecia anteriormente (1986). O espaço existente entre as duas partes é vital , acaba sendo constitutivo da obra – “respiros” , aberturas internas / externas , que mexem  ao mesmo tempo com  o conceito tradicional de díptico e com as concepções de interior-exterior. Outra questão importante. O espaço interno, da cor - textura, nasce após definição (arbitrária) do formato suporte. Esse aparece pois, realmente, como “objeto de pintura”* , como aquilo que define a priori o campo de projeção  do imaginário.



(DES) Encaixes


   Cria-se um jogo sutil entre as formas do suporte, que deveriam ser nítidas (para permitir os encaixes imaginários), e as bordas da tela deixadas soltas sobre o chassis e “pintadas como extensão do próprio espaço de pintura” *, criando “flous”, desfazendo em partes os limites, desmentindo em parte os encaixes possíveis.


   Esse jogo com os limites vem de longe. Está presente nas telas pintadas dos dois lados. Está presente, significativamente, no título da primeira exposição individual, “Quadras de destrinça”.  Está presente nas formas internas ao campo pictórico, que foram progressivamente perdendo os limites até tornarem-se um amálgama, uma forma única, cujas diferenças são marcadas apenas por sutilezas de tons e de texturas.



Paisagens – topografias


   Nos trabalhos mais  antigos , pode-se discernir, em função da disposição interna das formas , como que paisagens imaginárias. Aqui, um corte horizontal  no espaço, que sugere uma linha de horizonte; acolá , dois cortes semi - circulares , sugerindo montanhas e um vale. Dessas paisagens imaginárias , Dione fotografava  detalhes, que evidenciavam muitas vezes manchas, amálgamas de cores, que passavam desapercebidas no contexto geral da pintura. Esses macros - detalhes constituem , transformados pelas texturas, as formas – cores das telas atuais, as topografias imaginárias.


   Essas topografias fazem com que os espaços entre as partes dos dípticos apareçam como fendas, falhas geológicas – continentes separados, que mexem com sentimentos primitivos. Qual deles ?  A perdida Atlântida ?





-  Entrevista de Dione Veiga Vieira à autora , Dezembro / 1988.


**  -  Icleia   Borsa Cattani

         Crítica de arte, doutora em História da Arte, professora titular do Instituto de Artes da UFRGS, professora visitante no doutorado em Artes Plásticas da Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne).